Uma questão de tempo

nero

Não fica aí remancheando, menino!

A palavra, em desuso, lembra-me minha avó ao me ver negligenciar o “dever de casa” na infância.

“Dever de casa”, com o tempo, passou a ter outro sentido, bem diferente de fazer a tarefa escolar. E sentido pior, o de seguir as ordens de quem nos domina e oprime.

Mas o remanchear – ou remanchar, para outros – foi ficando perdido nas décadas.

Ressuscitou-o, infelizmente, a Justiça brasileira após seu vergonhoso papel de fazer a “tarefa” que o status quo lhe deu: interditar o processo político eleitoral, mais do que nele interferir.

Em nome disso, o Poder Judiciário passou a viver o que nunca viveu: a perda, já quase completa, de algo que lhe será dificílimo recuperar, até porque, ao contrário do que ocorre com o Executivo e o Legislativo, ali não se trocam as pessoas e as hierarquias em pouco tempo.

A inércia do Supremo Tribunal Federal, desde que, em 2014, Sérgio Moro começou a conduzir de forma extravagantemente espetacular os processos da Lava Jato, desde logo equiparando-os à sua obsessão com a Operação Mãos Limpas italiana, começou esta jornada que, hoje, chega ao pântano da desmoralização.

O “garoto”, afinal, era um prodígio: veloz, destemido, assertivo, decidia em poucos dias o que outros levavam semanas ou meses e, sobretudo, era o general na colina a comandar as “tropas do japonês” em operações que se sucediam toda a semana, todas elas com nomes retumbantes, escolhidos com rigor publicitário.

Era a “esperança do Brasil”, o “Faz Diferença”, o “Anjo Vingador”. Até “mocinho” de filme virou. A Candinha, fofoqueira-mor da vila cantava todos os dias que aquele, sim, era um bom garoto, não a molecada da rua.

Muitos – os fracos, os vaidosos, as nulidades e os oportunistas – puseram-se à sua esteira. Deram-lhe doces, aplaudiram suas momices e afetações, encantaram-se com o seu sucesso na casa daqueles vizinhos que nos roubam as frutas do quintal e suas  e, sobretudo, trataram de não o contrariar, enquanto o podiam fazer.

O “basta” demorou, demorou, demorou e, afinal, já não pode ser dado sem arrastar a casa de roldão e isso ficou mais que evidente quando, há meses, o STF adia o ponto central de qualquer reexame que possa fazer dos “deveres” feitos pelo menino, pela via dos recursos, porque, com a execução da pena antes deles, Inês é morta ou, ao menos, presa.

Agora, o menino é todo dentes e já nem mesmo à formalidade do “benção” é capaz de pedir. Manda por tornozeleiras em quem foi solto e manter preso quem mandam soltar. Não precisa mais de autos para despachar, manda um e-mail de Portugal e é obedecido.

É evidente que isto não pode prevalecer, ao menos não num simulacro de democracia e institucionalidade.

O menino, birrento, mimado, malcriado, tornou-se inconveniente e acabará posto fora da casa., que por sua causa virou uma balbúrdia.

É uma questão de tempo, que exige apenas remanchear até as eleições.

 


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