A resposta de Darcy a D. Diva, da Flip e do Brasil

divanova

Aconteceu comigo o melhor que pode acontecer com quem escreve: saber que transmitiu algo de forma capaz de emocionar.

A Dona Diva, Diva Guimarães, que ficou nacionalmente conhecida por seu depoimento na Feira Literária de Parati, mandou-me, por uma amiga, uma carta, agradecendo a mensagem de Darcy Ribeiro, lá da rede preguiçosa de uma Amazônia cósmica onde descansa, enviou quando viu seu depoimento, tão espontâneo quanto emocionado e que postei aqui:

Querido Fernando Brito
DARCY RIBEIRO É MEU ÍDOLO!!
É a pessoa que mais me esclareceu sobre a etnia brasileira.
Obrigada pela oportunidade que você me deu de receber uma carta do meu ídolo, que é mais conhecido no mundo do que no Brasil.
Não tive oportunidade, mas lhe agradeço, aqui, por ter me proporcionado este emocionante encontro.
Sou a pessoa mais feliz e chorona após ler esta carta.
Um abraço fraterno, da
Diva Guimarães
Curitiba, 15/08/2017

Como o meu papel neste história é, assumidamente, o de estafeta, mandei o texto da Dona Diva para o Xingu etéreo e de lá veio a resposta, que transcrevo sem dar pitaco:

Diva, Este menino que me serve de cambono, o Fernando Brito, mandou a carta que você enviou a ele, por conta da minha carta, na qual ele nada mais fez que psicografar, com meus sentimentos e meus escritos, a emoção que você me deu.

Não fez mais que a obrigação, porque a carta não era para ele, era pra mim.

Você diz que sou “a pessoa que mais me esclareceu sobre a etnia brasileira”. Bobagem. Claro que não, Diva.

Quem te esclareceu, Diva, foram os  teus olhos. Os que olhavam tua mãe, forte e severa, os que olharam você mesma, míúda e marrenta, os que viam suas colegas, desde as meninas bem cuidadas, que pareciam bonecas de louça, de bochechas rosadas até  as de rosto ruço, envergonhado ou mal disfarçando o rancor, mais que humano, do canto, do borralho, da cozinha.

O que a sua mãe dizia sobre “ser melhor que eles” os negros deste país já são. Porque são tão poucos os que, com tantas razões à disposição, odeiam os brancos, enquanto, desgraçadamente, são muitos os brancos que, sem razão alguma, odeiam os negros.

Não seja besta de me achar um ídolo, porque a gente não precisa de ídolos que não sejam gente de carne e osso como você ou como eu era, antes de me tornar estes vapores que virei, que o vento ainda não carregou da Terra, de teimoso que eu sou. Eu não quero ser conhecido no mundo, mesmo vaidoso como eu sou (ou era). Eu quis é conhecer o mundo, para ver gentes de todas as formas e cores, apenas para saber que, altas, baixas, magras, gordas, azuis , amarelas e cor de abóbora, todas elas têm muito mais em comum do que diferenças.

Eu não esqueço o passado, Diva, tal como você. Mas saber que ele é cheio de ódios, preconceitos, discriminações, não nos torna nem odiosos, nem preconceituosos, nem discriminadores. E é por isso que o futuro nos abre a porta, Diva, porque  temos uma chance rara de ser uma coisa que o mundo ainda não conheceu.

Um povo só, o melhor do mundo, sem ser maior do que ninguém, mas que  é muito mais na sua diversidade, é a civilização do amanhã, porque é a soma de todos, das virtudes que se se agregam e defeitos que se diluem.

Pois não é, Diva, o nosso milagre como professores, o de perceber suas diferenças , tratá-los como iguais e amá-los como semelhantes? 

Quanto a encontros emocionantes, agora que eu não tenho mais a pressa que tive a vida inteira, tomo a liberdade de perguntar. Será que daqui a uns 30 anos, você tem algum compromisso aqui pela eternidade?

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