Quem vai deter o monstro?

wagner

Os processos de nazificação da vida social não são um estrepitoso raio caído do céu, como podem, em alguma escala, ser os golpes militares, na verdade momentos de catálise de processos que já se desenvolvem com menos velocidade.

Na Alemanha, partiu-se de um ressentimento nacional, com as humilhações impostas por Versalhes, dramatizou-se-o com a inflação galopante, criando a estufa onde cresceram os grupamentos que proclamavam a restauração nacional e a eliminação dos parasitas econômicos e sociais, responsáveis pelos dramas diários do povo alemã. E, afinal, uber alles, acima de tudo, um obcecado, de olhar vítreo, a dar forma humana (humana?) e divinal ao desvario coletivo.

Tudo sob o beneplácito do capital alemão que aplaudia e recebia em seus salões aquele tipo meio estranho, mas muito útil para deter os “vermelhos”.

Estamos, aqui, diante de mais que um simples golpe político.

Despertou-se um processo incontrolado de afirmação de uma casta judicial-policial que está inebriada pela conquista do poder real sobre a vida brasileira, por deter na lei e na sua aplicação – e as consequências disso: processos, buscas, “conduções” e prisões – um poderoso instrumento de chantagem que torna vassalos os “com-voto” do Executivo e do Legislativo.

Deformações éticas e morais, próprias (embora impróprias, em si) de quaisquer estruturas político-organizacionais – públicas e privadas, nestas algo mais legitimadas pela “finalidade” do lucro – tonaram-se o já longínquo ponto de partida para essa cruzada neofacista. Já quem se lembra de Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco e seus milhões roubados?

Apenas isso, para continuarmos no alemão, um leitmotiv, um motivo condutor wagneriano para temperar a ópera (e seu público) sempre com a pimenta ardida da corrupção.

Que passa de um caso, verdadeiro, para uma causa, e falsa, que mal encobre um rasgo de usurpação do poder.

Em nome de um “republicanismo” que travestia a covardia, as instituições legítimas permaneceram inermes  diante do que se desenvolvia, esperando que os sistemas de freios e contrapesos da Justiça prevalecessem, sem entender que, por covardia ou cumplicidade, não é apenas o arreganho de um maníaco – embora haja em Sérgio Moro todos os traços de uma obsessão- mas um projeto de tomada de poder.

Que, mesmo que se frustre, terá deixado na vida brasileira os ajuntamentos fascistas que se vê proliferarem e ganharem peso.

O que se fez, ontem, no pedido de prisão preventiva de Lula, perdeu os ainda presentes – e nem tanto, desde o abuso da condução coercitiva de Lula, na sexta – rebuscos jurídicos de Moro.

É a já a baixa milícia em ofensiva, que coloca nas mãos e na cabeça de uma juíza de Vara Criminal os destinos da República. Sem qualquer julgamento de caráter desta magistrada, é demais para ela ou para qualquer outro. Se for uma pessoa dominada pelo ódio – tão frequente hoje – por ele pode se deixar levar. E, se ao contrário, for equilibrada e plena de sentimento de legalidade – se poderá exigir dela que trate e mostre como lixo o que virou “causa do combate à corrupção”?

Lembrem-se que o tema de Wagner toca, todos os dias, por todo o dia, com afinação de uma orquestra, em todos os alto-falantes do país.

O grande compositor alemão, que teve práticas esquerdistas, chegando a integrar a  Guarda Comunal Revolucionária nos levantes de 1848, 90 anos depois, como se sabe, foi transformado em fundo musical do nazismo.

 

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