Um ser humano não deve ter brio? Lula teve toda a razão em não se deixar humilhar

luladepoim

Lendo o depoimento de Lula ao delegado da Polícia Federal e a afetação com que o tratam os jornais – esperem o Jornal Nacional, à noite – tenho de voltar ao tema, mesmo depois do post anterior.

Cuidam como se fossem reações impróprias dizer que certas histórias são “sacanagem homérica”, ou dizer que “está de saco cheio” ou ainda dizer que se prendesse o procurador aloprado para que ele explique, afinal, como “é do Lula” um apartamento que não “é do Lula”.

Vem cá, como é que você tem de provar que algo não é seu se não há um documento que prove, direta ou indiretamente, que é seu?

Ainda mais quando você é tirado de sua casa, às seis da manhã e embarcado num camburão sob ameaça de ser levado à força?

Lula já fez muito em não dizer desaforos piores ao delegado, porque não há lei na terra que impeça um homem de ter brios, honra e dignidade.

Não se lhe pediram esclarecimentos, o conduziram a depor, sem convite prévio, como o denunciaram, em São Paulo, antes de ouvi-lo.

Era de fazer pior.

No final dos anos 80, recebi uma intimação para depor. Havia um processo criminal contra mim. A razão? Um talonário de cheque havia sido roubado de dentro do banco onde eu tinha conta e os supostos cheques, emitidos,  com uma assinatura que não era a minha e uma cédula de identidade muito menos.

Ao chegar à delegacia, o escrivão “convidou-me a sentar”:  – senta aí, ô 171.

Deu quiprocó, porque respondi com outra pergunta, a de que se havia alguém da família dele ali, para ele estar falando assim.

Como eu, precavido, já tinha no bolso uma declaração do banco, dizendo que nada tinha a ver com aquilo, o delegado não deixou avançar, infelizmente, o crime de desacato.

Porque eu não desacatei um policial, desacatei um moleque que acha que a função dá a ele o direito de agir assim.

Juiz nenhum, delegado nenhum, policial algum pode tratar alguém como culpado de algo sem que haja não apenas indícios  e muito fortes –  e provas sólidas. Pelo menos por enquanto, enquanto não se entrega a Constituição e o poder ao Estado Policial.

Nem a mim, nem a você, nem a Lula.

Esta é a contrapartida de ninguém estar acima da lei; a de ninguém estar abaixo da linha de dignidade e respeito que qualquer cidadão merece.

Ninguém pode ser chamado a depor como investigado, menos ainda levado à força sem que haja elementos concretos que o façam necessário.

Não há perguntas do tipo “como é que o senhor explica ter feito isso”, “como é que o senhor assinou o documento tal”, porque combinou tal coisa com o fulano?”.

Tem é: “conhece fulano?”, “esteve com Sicrano?”, “como era sua relação com Beltrano?”.

Como diz aquele promotor lá de São Paulo, vá catar coquinho, porque o interrogado não é uma autoridade pública que deva ter a contenção que o servidor precisa ter, por estar representando o Estado.

Tanto a vida pública quanto o jornalismo, claro, devem conter nossos impulsos e fúrias, mas nunca completamente.

Tanto quanto não se deve deixar que tome conta de nós.

A mão irada erra tanto o tiro quanto a mão que treme.

Fez muito bem o Lula em reagir, mesmo que de maneira contida .

Um homem sem brios é um homem sem honra. E um homem sem honra jamais será um líder.

Eu trabalhei com um, que você pode ver aí embaixo.

 

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