Os “conselhos” do mercado a Ciro Gomes

cirolula

Em vários textos, em pleno domingo, o Valor Econômico tenta “pescar” a reação dos bookmakers, digo, dos operadores do mercado financeiro, à pesquisa Datafolha.

O que aparece, nas opiniões recolhidas, é interessante.

Como era de se esperar, claro, todos os ouvidos têm horror a Lula, embora todos tenham vivido e lucrado sob seu governo.

Mas todos se mostram “aliviados” com o fato de Ciro Gomes não ter crescido significativamente.

Um deles diz que “Ciro não capturar votos de Lula é positivo ao mercado“. Outros dizem o mesmo de maneira menos direta.

Ciro, fica claro, não é “confiável”. “Confiável”, só Alckmin.

Marina Silva e Jair Bolsonaro, percebe-se, não são vistos como hostis, mas incapazes, o que, convenhamos, não está longe da realidade. “Servem”, porém, em último caso.

A reação, porém, deveria servir como um aviso para o próprio Ciro.

Sozinho, “não vai”.

Muitas vezes, na campanha de 1989, discuti com Leonel Brizola sobre o apoio que ele esperava dos que chamava de “conservadores lúcidos”. Eram aqueles que, em tese, se assustavam com o radicalismo verbal de Fernando Collor, com a inviabilidade eleitoral de Ullysses Guimarães e Aureliano Chaves e, claro, com o próprio Lula.

Brizola, no fundo, acreditava que o já então minguante segmento da “burguesia nacional”, sobretudo no setor industrial, poderia apostar no seu desenvolvimentismo e  – como Lula experimentaria mais tarde – na pretensão de ampliar o mercado interno com a elevação dos padrões de renda dos trabalhadores.

Seria, pensavam eles, a atitude racional de um país que tem 200 milhões de habitantes, uma escala que poucas nações podem ostentar.

Ele, tal como Lula, equivocava-se ao subestimar que eles se mantém na ideia da exclusão, contentando-se com um país onde um terço consome mas, em compensação, dois terços de miseráveis lhes garantem o lucro financeiro no mercado de capitais.

Talvez falte a Ciro Gomes esta compreensão, a de que a transformação política do Brasil não se dará senão pela mobilização monolítica do povo brasileiro que, claro, começa pelo sentimento que este país tem uma maioria de excluídos que é a única força capaz de sustentar um governo diferente e que possa fazer alianças a partir de uma posição de força, não da vaga ideia de um republicanismo que, vê-se hoje, é apropriado pelas elites, para afastar o povo.

Da meritocracia à “eficiência da gestão”, vendem a ideia de que o que nos atrapalha são os pobres.

Mesmo os que rejeitam esta ideia ficam presos a um legalismo que não existe, a uma “constitucionalidade” que há muito não é respeitada e de um respeito a um Judiciário que, há muito, não respeita a lei, mas exerce a vontade do império. Sem contar, claro, um “tribalismo identitário”, esquecidos de que “tribo” é o nível mais arcaico de organização das coletividades humanas.

Ciro tem e terá dificuldades em crescer à direita, está claro.

A ver se Ciro quer crescer com Lula, que não lhe exigiu submissão, mas o reconhecimento de seu papel de líder.

Ou se quer ser um solitário aspirante  a salvador da pátria, coisa que nem mesmo Lula, muito maior que ele na política, aventurou-se a ser, desde que descobriu que não era um homem, mas uma ideia.

Por vezes, a reação de nossos adversários é o melhor indicador do que devemos fazer.


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