Nordeste: a terra da vingança do golpe

nords

A matéria publicada hoje no Estadão é o retrato do que, ontem, levantou-se aqui na crítica à visão tecnocrática de que a redução dos programas sociais – a previdência publica universal é um deles – traria para as regiões mais pobres do Brasil.

Um estudo de uma consultoria econômica, a Tendências, mostra como os nordestinos são vítimas, em muito maior grau, do cenário de devastação econômica inciado por Joaquim Levy e imensamente aprofundado pela dupla Henrique Meirelles- Michel Temer.

É um quadro dramático e não vai demorar para que tudo aquilo que se acumulou na era Lula-Dilma e que ainda “segura” o drama social dos nordestinos.

Leia o texto, muito bom, de Renée Pereira:

Uma perversa combinação entre crise econômica e problemas climáticos tem castigado o Nordeste do Brasil. A região, que nos últimos anos teve importantes avanços sociais, agora começa a perder parte dessas conquistas com o enfraquecimento da economia e perda do poder aquisitivo da população.

Levantamento feito pela Tendências Consultoria Integrada mostra que, em 2015 e 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) da região teve recuo médio de 4,3% ao ano – o pior resultado entre todas as regiões do País. Com o desemprego em alta, a renda familiar encolheu 2% ao ano e, num efeito cascata, fez as vendas no comércio despencarem quase 20% nos dois anos.

Parte desse resultado negativo é reflexo da pior seca dos últimos 100 anos. Entre 2012 e 2015, o Nordeste teve prejuízos de R$ 104 bilhões por causa da falta d’água. Desse total, R$ 74,6 bilhões foram na agricultura, R$ 20,6 bilhões na pecuária e R$ 1 bilhão na indústria, além de perdas dos próprios municípios com programas de ajuda. 

O fraco desempenho da região também tem origem em questões estruturais. O Nordeste é altamente dependente das transferências governamentais, que recuaram com a crise fiscal brasileira. Com a queda na arrecadação nacional, Estados e municípios passaram a receber menos dinheiro para investir e pagar despesas.

Aposentadoria. Outra característica é que, até 2015, quase 24% da renda familiar vinha de aposentadorias, pensões ou Bolsa Família. “Durante vários anos esses benefícios cresceram mais que a renda do trabalho e foram importantes motores de consumo do Nordeste”, diz o economista da Tendências, Adriano Pitoli.

Essa política – adotada na era Lula e Dilma Rousseff – ajudou a economia local a avançar acima da média nacional. De 2006 a 2014, o PIB da região teve crescimento médio de 3,9% ao ano, enquanto a média nacional foi de 3,5%. A renda familiar subiu 6,9%, impulsionando o comércio a uma taxa anual de 8,8%. 

Mas essa fonte de crescimento parece ter se esgotado, e não há perspectiva de que volte no mesmo ritmo e potência dos últimos anos. Entre 2015 e 2016, a renda do Bolsa Família, por exemplo, teve queda média de 5,7% ao ano, segundo a Tendências. No período 2017-2021 deve crescer apenas 0,3% ao ano.

Os avanços fizeram muitos economistas acreditarem que, em 50 anos, o Nordeste conseguiria se aproximar do PIB per capita nacional – o produto das riquezas totais produzidas pela região dividido pela quantidade de habitantes. Hoje essas estimativas não se aplicam mais. Segundo as previsões da Tendências, no ano passado o indicador recuou ao nível de 2009.

“O Nordeste teve ganhos de renda baseados em crédito e em programas sociais. Só que não fizemos nada para promover os avanços na produtividade para que essas conquistas fossem perenes”, afirma o pesquisador José Ronaldo de Castro Souza Júnior, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo ele, não se investiu em educação e saneamento para melhorar e desenvolver a região. “O resultado é que se tem uma convergência no curto prazo, mas depois volta o que era antes.”

O economista Jorge Jatobá, diretor da consultoria Ceplan, de Pernambuco, afirma ainda que a região foi fortemente prejudicada pela paralisia de grandes empreendimentos. “Vivemos uma conjunção de problemas. Além de depender muito das transferências estaduais e federais, projetos que vinham sendo construídos na região tiveram as obras reduzidas, paradas ou canceladas.” 

Segundo ele, entre 2007 e 2014, o Nordeste tinha R$ 104 bilhões de investimentos sendo tocados. Isso inclui a ferrovia Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco e as refinarias da Petrobrás, atingidas pela Operação Lava Jato

Posts relacionados...

Comentários no Facebook

13 Respostas

  1. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    2,9% da renda do Nordeste são provenientes do Bolsa Família? Então onde fica a tese de que o programa é uma esmola para vagabundos? Ou será que nunca tivemos ninguém na linha de extrema pobreza no Brasil e que isso era invenção do PT para se garantir no Poder? Em que lugar do mundo 2,9% de eleitores decidem uma eleição? Só na cabeça de ignorantes mesmo.

    • re disse:

      a maioria dos beneficiário do bolsa-família trabalha, é só um complemento (tão pouco e fazia tanta diferença, pois na somatória de beneficiados ajudava a dinamizar as economias locais), mas a mídia distorce tudo

    • Vamos com calma... disse:

      Matemática básica e raciocínio lógico: esses 2,9% da RENDA é destinado a um percentual muito maior de ELEITORES.
      Em tempo, não acho que Bolsa Família é compra de votos, acho que é importantíssimo. Só não vamos distorcer as informações…
      Abraços!

    • Vitor disse:

      Cuidado com a matemática: esses 2,9% da RENDA é destinado a um percentual muito maior de ELEITORES.
      Em tempo, não acho que Bolsa Família é compra de votos, acho que é importantíssimo. Só não vamos distorcer as informações…
      Abraços!

  2. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    Quando teremos outra entrevista na TV, onde o Temer é “pressionado” pelo Roda Viva?
    Sugestões de perguntas:
    1. O sr. ainda é apaixonado pela Marcela?
    2. Qual a marca do sabonete que o sr. usa?
    3. Qual a colônia que a Marcela usa?
    4. Que música vocês ouvem?
    5. O Michelzinho já aplica na Bolsa de Valores?
    6. Qual sua marca de sorvetes preferida?

    Essas perguntas são essenciais para nossa compreensão sobre o que ele pensa do Brasil.

  3. Henrique R disse:

    Em menos de uma década, o Brasil passou de um país nulo em energia eólica para se tornar o 10º maior produtor do mundo – e, no centro desta mudança, a região Nordeste é protagonista.
    De acordo com o Conselho Global de Energia Eólica, o Brasil tem a 10ª maior capacidade de geração do mundo e, em 2014, foi o quarto que mais ampliou esse potencial, atrás de China, Alemanha e Estados Unidos.

    E agora?

    • Guilherme disse:

      A Associação Brasileira de Energia Eólica e produtores de equipamentos reclamaram do último cancelamento do leilão de renováveis.

  4. salvador disse:

    Chamo a atenção para um fato incrível. Uma matéria publicada às 5:00h (No site do Estadão) e até às 13:30h não tem sequer um comentário. Maravilha de hipocrisia coxinha, como a matéria (calcada em fatos) não corrobora (pelo contrário, refutam) suas teses de pós-verdade ignora-se-lhe. Este é o dito “silêncio eloquente”. Uma reportagem devastadora da mentalidade medíocre brasiliana, mostrando causas e efeitos (naturais e/ou humanas). Demonstrando como um governo pode, com planejamento e boa gestão, amenizar o sofrimento de um povo e de quebra dinamizar a economia. Tudo isso dito por um instrumento do Bolivarianismo Sul Americano, uma tal de Consultoria Tendencias, que deve ser só mais um braço da Fundação Perseu Abramo.

  5. Roberto Monteiro disse:

    Para os PATETAS GOLPISTAS, pobre e nordestino não são gente. Gente, para estes lixos humanos somente a massa cheirosa da tatanhenta.

  6. Vitor disse:

    “O Nordeste teve ganhos de renda baseados em crédito e em programas sociais. Só que não fizemos nada para promover os avanços na produtividade para que essas conquistas fossem perenes”, afirma o pesquisador José Ronaldo de Castro Souza Júnior, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo ele, não se investiu em educação e saneamento para melhorar e desenvolver a região. “O resultado é que se tem uma convergência no curto prazo, mas depois volta o que era antes.”

    Sem mais, meritíssimo…

  7. Pereira disse:

    Esse jornalão é dirigido sem dúvida alguma, por pessoas sem qualquer CARÁTER.
    Publicam uma “reporcagem” dessas como se fossem solidários a problemática regional do Nordeste brasileiro, ou como se o Nordeste brasileiro precisasse de piedade. O Nordeste brasileiro precisa sim, mas de Políticas Publicas como as adotadas nos Governos LULA/DILMA.
    Ora, mesquinhos mesquitas, são vocês quem conspiram constantemente contra os brasileiros de maneira a perpetuar um Brasil em flagelos…
    São vocês mesquinhos mesquitas simplesmente GOLPISTA, ENTREGUISTAS, APÁTRIDAS E TRAIDORES DO POVO BRASILEIRO.
    É que vocês sejam ver o Brasil SEMPRE de quatro…
    CANALHAS!!!!

  8. Tomás disse:

    Muito se fala sobre o Nordeste apenas porque cabe em sua lógica pessoal, ou repete-se de ouvir falar. A imprecisão e o chute em ensaios, artigos e estudos sobre o Nordeste é contumaz. “O Nordeste teve ganhos de renda baseados em crédito e em programas sociais. Só que não fizemos nada para promover os avanços na produtividade para que essas conquistas fossem perenes”, afirma o pesquisador José Ronaldo de Castro Souza Júnior, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo ele, não se investiu em educação e saneamento para melhorar e desenvolver a região. “O resultado é que se tem uma convergência no curto prazo, mas depois volta o que era antes. O que o pesquisador não sabe é que foram feitas inúmeras iniciativas contributivas um mesmo esforço gigantesco para fazer com que todas as políticas sociais se transformassem em sementes de uma transformação permanente. Ignorar isso é uma falta que desautoriza qualquer estudo sobre o assunto. Inúmeros programas completares foram desenvolvidos e implementados. E quanto à educação, nunca em tempo algum o Nordeste vivenciou em tão pouco tempo um avanço tão grande. Se você percorre as rodovias dos mais afastados rincões lá estão pelas estradas, dia e noite, turmas e mais turmas de estudantes fardados se deslocando para casa ou para a escola, num espetáculo completamente inusitado. A educação, tanto básica como superior, entrou profundamente no Nordeste e esse fenômeno é muito recente, mas já transformou completamente a região. Do mesmo modo, o saneamento básico e a generalização da noção de sanitarismo tem transformado profundamente o Nordeste. Ela não chega a ser uma calamidade, já que a própria incidência solar, por si, é um potente desinfetante, o que a diferencia de regiões como a de Blumenau, Santa Catarina, onde o ar é úmido e a rede de saneamento básico cobre apenas 30% do município.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *