Não subestimem a história. Por Celso Vicenzi

CharlesLecomte

O povo escreve a história com as suas próprias pernas. As lideranças, quando surgem, são apenas a expressão visível da vontade popular. O tempo em que mudanças profundas ocorrem não é, necessariamente, o tempo que nos é dado viver. Retrocessos e avanços estão continuamente sendo produzidos em cada pedaço de chão do planeta. E antes de termos nascido e depois que viermos a morrer, fatos memoráveis aconteceram e acontecerão em muitas e imprevisíveis direções.

Sei pouco, mas o pouco que sei basta para compreender que quando as pessoas que comandam as instituições de um país e que deveriam garantir a estabilidade social, econômica e política, se dedicam a usá-las unicamente em benefício próprio e de grupos, para subjugar ainda mais quem pouco tem, estão assinando a sua própria sentença, pondo a própria cabeça a prêmio. Com sorte, morrerão antes. Mas pode ser que ainda em vida compartilhem situações ocorridas em países muito próximos e outros mais distantes, onde poderosos acabaram presos e até mesmo condenados à prisão perpétua (como aconteceu na América Latina), sem falar naqueles que levaram ex-dirigentes à pena de morte. Não estou dizendo que isso acontecerá no Brasil (que não tem pena de morte, a não ser para pretos e pobres, executados neste país todos os dias). Faço apenas o registro que já aconteceu, em vários países. Mas é próprio de quem tem o poder, achar que nunca corre riscos.

No entanto, quanto mais poderoso alguém se sente, a ponto de fazer escárnio da maioria da população, como agora assistimos cotidianamente com parlamentares, juízes, procuradores, empresários e tantos outros que tripudiam sobre a desgraça de quem quase nada ou pouco tem, mais encorajam a revolta de quem tem sede de justiça. E desta vez, porque queimaram as pontes e destruíram os pactos, a alternativa de reconstrução pode não ser pela via da conciliação, como outrora aconteceu, em tantos momentos da história do país, desde a Independência, anunciada por um nobre português (ora pois!), passando pela Proclamação da República, redemocratização, anistia a torturadores e tantos outros episódios em que o povo, ou não participou ou não foi ouvido.

Mas, embora encobertas pela história oficial, não faltam revoltas e movimentos de insurreição, como as guerras de Canudos, do Contestado, a Sabinada, a Balaiada, a Revolta da Chibata, Insurreição Pernambucana, Revolução Farroupilha e segue uma lista que não é pequena.

Apesar de todas essas e outras insurgências que desafiaram os poderes estabelecidos, é fato que temos uma história marcada por (falsos) consensos, geralmente à revelia do povo, negociada pelos donos do “andar de cima”. Entre a paz e a convulsão social, difícil prever desdobramentos. Cada povo constrói a sua história. Mas nada garante que essa “paz” – tantas vezes sangrenta – seja eternamente duradoura. Melhor não abusar.

Por isso, quem hoje ri, pode chorar. Quem é herói, pode virar vilão. A história caminha por vias tortas e instáveis. Quem pensa que pisa chão firme, esquece que o fundo da terra é feito de lava incandescente, sempre prestes a explodir. Em pouco tempo, sociedades podem dar vazão a forças incontroláveis. Às vezes, cortando cabeças de reis e rainhas, nobres e plebeus, aqui e acolá. Ou levando países a guerras civis e outras experiências traumáticas, com manifestações de ódio. Onde havia paz e serenidade, pode sobrevir hostilidade e pânico. Do céu ao inferno, é mais perto do que muitos imaginam.

Abrir os livros de História é mergulhar, não raro, em períodos de grandes horrores. Já seria o suficiente para ninguém abusar da paciência de quem é continuamente violentado em seus direitos. Muito menos subestimar o destemor e a coragem, como já nos ensinou há 2.500 o general Sun Tzu (A Arte da Guerra) do inimigo a quem não é oferecida uma saída, porque nessa situação, “ele lutará até a morte” com uma bravura e uma potência que talvez nem soubesse de que é capaz.

E os donos do golpe simplesmente não oferecem nenhuma saída à população que não seja a de abrir mão de direitos, caminhar rumo à miséria e viver oprimida. Num país rico e desigual, os golpistas empurram o povo para um lugar onde a resposta mais justa e previsível é o uso da violência contra quem o violenta. Apostar continuamente na apatia de quem assiste, com fome de justiça, ao banquete dos poderosos, é uma aposta arriscada demais para um país que dispõe de tantos recursos para distribuir melhor a renda e evitar o caos.

Celso Vicenzi é jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Cataria e escreve em seu blog.

Comentários no Facebook

25 Respostas

  1. Marcio disse:

    Tudo certo no na premissa da existência de um Povo.
    Mas onde só existe uma população que às vezes é chamada de povo, fica difícil de creditar.

  2. PEDRO HOLANDA disse:

    Isto se a gente fosse um povo.

  3. Messias Franca de Macedo disse:

    Um dia depois de reunião secreta de Dodge com Temer, PGR reabre caso antigo contra Lula
    Escrito por Miguel do Rosário

    Um dia depois da subprocuradora-geral da república, Raquel Dodge, reunir-se secretamente, à noite, no Palácio do Jaburu, com aquele que a escolheu, Michel Temer, a Câmara de Combate à Corrupção da Procuradoria Geral da República (PGR) decide desarquivar um caso antigo contra Lula. O caso foi investigado exaustivamente e jamais se encontrou qualquer prova. Tanto que foi arquivado. E agora ele é desarquivado, como forma de fustigar Lula, líder nas pesquisas, e desviar a atenção popular do escândalo envolvendo Michel Temer, cujo assessor foi flagrado com uma mala de 500 mil reais. É o primeiro movimento daquela que será a […]
    (…)

    FONTE [LÍMPIDA!]: blog ‘O Cafezinho’

  4. Messias Franca de Macedo disse:

    ]

    NA HORRENDA & TÉTRICA FOTOGRAFIA ACIMA
    http://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2017/08/933expresso-1-compressed.jpg

  5. Lenita disse:

    Contextualizar a historia: como o empresariado brasileiro e estrangeiro participou da ditadura para compreender como o golpe de 2016 é a sequência natural desse apoio.

    https://youtu.be/r-63QX3FtyU

    • Messias Franca de Macedo disse:

      TOLEDO: DODGE AJUDOU TEMER A PARECER MAIS FORTE E RESILIENTE

      “Ao submeter-se ao cenário montado pela Turma do Pudim, a futura procuradora-geral fez a alegria dos teóricos da conspiração”, afirma o colunista, para quem a “Operação da Turma do Pudim para desacreditar a Procuradoria Geral da República e salvar Temer está sendo um sucesso”
      10 DE AGOSTO DE 2017
      O jornalista José Roberto de Toledo avalia que, com o encontro fora da agenda que teve com Michel Temer na calada da noite no Palácio do Jaburu, a nova procuradora-geral da República, “na melhor das hipóteses, ajudou Temer a parecer mais forte e resiliente” (
      (…)

      FONTE: https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/311066/Toledo-Dodge-ajudou-Temer-a-parecer-mais-forte-e-resiliente.htm

      • Lenita disse:

        Verdade Messias, mas verdade mesmo é que o povo não é bobo. Lembra da Diva Guimarães ? É só escuta-la de novo para ver que aos seis anos de idade ela ja tinha entendido o papo furado dos “missionários” e até Deus lhe parecia um ator bem pouco confiável. Se uma criança de 6 anos entende isso tudo podemos crer que os Lulas são milhões e milhões. Não haverá ovos suficientes nem tomates podres para armar tantas mãos e mentes conscientes. À luta !!!

  6. Lenita disse:

    Marcondes de Oliveira: comentário perfeito que foge às conclusões falsas e restritivas do preconceito dos viralatas do cotidiano. Essa visão limitada pela falta de leitura dos mais básicos e primários livros sobre a historia passada e presente desse país gigante … rsrsr

  7. alcides carpinteiro disse:

    Das revoltas listadas pelo autor do texto, algumas não são populares. Farrapos foi organizada por estancieiros. Outras foram populares, mas muito restritas localmente e de participantes. As duas únicas de volume foram canudos e contestado. Em ambos os casos, o Estado castigou covardemente os revoltosos. Esse é o tratamento do Estado brasileiro (ou colonial) com os pobres quando esses se revoltam. Quando a revolta é por cima, há sempre um acordo. Não seria diferente desta vez, caso os pobres se revoltem. Seriam fortemente reprimidos e taxados de terroristas bolivarianos.
    Nessa terra abençoada por Deus e comandada pelo demo, quem faz agitação política é a elite e a classe média. Ambas são cúmplices da pouca vergonha que se instalou no Brasil.

    • Lenita disse:

      Por essas razões muito bem ilustradas no seu post o MST, com 20 anos de luta, continua sendo sistematicamente assassinado e nem sequer aparece no texto apesar de terem tido muitas conquistas. O mesmo para tantos outros movimentos sociais de base: as mulheres feministas e negras tb lideram a ação política de mais peso na contemporaneidade mas sem muito apoio ou visibilidade. Claro, a esquerda progressista se mostra como sempre completamente colonizada pela direita reacionária, conservadora e assassina. Hoje, contudo, esses horrores estão sendo desnudados. Só nos resta: ou luta ou escravidão e barbárie para todos não alinhados aos 1% …

    • José Ricardo Romero disse:

      Concordo Alcides. Este texto, além de ter a maior concentração de lugares comum por parágrafo já lido, é de um otimismo polianesco. Será que devemos esperar que os anjos digam amém e aí a história se autentica? Será que o autor se esqueceu que quem conta a história são os vencedores? Não fosse assim viveríamos num mundo menos imperfeito.

  8. Gilbert disse:

    Bom relembrar a historia de roma, naquela parte do grande incêndio…

  9. Helbert Fagundes disse:

    Boa tarde,

    Já fui mais direto que o texto em tempos anteriores a esses! Disse que aqui só uma revolução francesa… Riram de mim, agora querem, eu aceito se quinzi for meu junto com o mineirinho!

  10. Bernardo disse:

    E a coxinhada treme e dá chilique de ouvir o nome Lula.

  11. Gilbert disse:

    Tá na hora da história voltar a se repeti, e do povo não há outra coisa a se esperar a não ser o confronto contra os tiranos que insistem em lhes tirar direitos conquistados a duras penas.

  12. Lula disse:

    Mas uma para o cachaça do LULADRAO o MENSALÃO foi reaberto

  13. assim falou Golbery disse:

    o povo escreve sua história… onde algum dia se viu povo por essas bandas?

  14. Valmont disse:

    A classe média é elemento-chave para as mudanças políticas. Nos momentos em que ela se associa à elite plutocrática, sobrevêm os golpes que, invariavelmente, terminam por prejudicá-la.

    A primeira vítima da violência que explode hoje no Brasil é a classe média, porque ela tem contato direto e cotidiano com as classes excluídas, porque, ao contrário do 0,01% do andar de cima, ela não dispõe de helicópteros, jatinhos e guarda-costas. Ela caminha no mesmo asfalto, compartilha o espaço das ruas como qualquer pobre mortal.

    Os programas policiais e pseudojornalísticos do Cartel da Mídia induzem a classe média à ilusão de que as forças repressoras do Estado (polícias, Forças Armadas) são portadoras da SOLUÇÃO ÚNICA E EXCLUSIVA para mantê-la a salvo da violência. Ao mesmo tempo, a mídia aterroriza, imobiliza e manipula o cidadão até torná-lo uma espécie de “galinha de granja” enclausurada em seu canto.

    A verdade simples e objetiva, que o nobre telespectador é levado a ignorar (e que precisa encarar), é que enquanto houver fome e miséria o instinto de sobrevivência empurrará os excluídos para o crime e ele, o mister classe média, será o alvo preferencial da violência. É dizer, a classe média arca com o pesadíssimo custo das políticas antissociais e excludentes, pagando, não apenas com o seu patrimônio, mas com a própria vida e as de seus familiares.

    Nem todas as forças de repressão do planeta unidas seriam capazes de conter dezenas de milhões de pessoas em situação de fome e desespero.
    É muito óbvio e simples de perceber que o problema da violência, em qualquer lugar do mundo, é enfrentado com políticas voltadas para a inclusão social, geração de emprego e renda, educação. As forças policiais têm a função secundária de contenção, mas as pessoas precisam ter alternativas para viver com dignidade.

    Já foi demonstrado aqui mesmo no Brasil que a verdadeira solução não custa caro. Programas de renda mínima, educação, agricultura familiar, etc., custam muito menos do que a guerra sangrenta provocada pela plutocracia do 0,1% e paga pela classe média.

    A classe média precisa compreender, clara e objetivamente, que a abordagem induzida pelos datenas e seus clones do Cartel da Mídia equivale exatamente à proposta nazista: extermínio de uma enorme população. Em uma palavra, GENOCÍDIO.

    Isto tem que ser dito e repetido à exaustão, para que as pessoas identifiquem a origem do seu próprio fascismo e o encarem sem máscaras, sem falsas justificações. Percebam aonde querem chegar as ideias instiladas, insidiosa e insistentemente, pelo Cartel da Mídia. Mas, principalmente, se percebam si mesmos encarnando a ideia do assassinato de milhões de mulheres, de crianças, de jovens, de idosos, enfim, de seres humanos brasileiros de carne e osso. Enfim, encarem a sua atitude e decida se é esta forma monstruosa e abjetamente criminosa que eles pretendem materializar em suas vidas e em seus país.

    Que essa mensagem urgente à classe média seja traduzida em todas as formas artísticas, jornalísticas e científicas, cinema, teatro, Youtube, prosa, poesia, blogs, livros, enfim, precisamos chamar à reflexão antes que seja tarde demais para conter a barbárie semeada pelo Cartel da Mídia.

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