Não perder a ternura é não perder a democracia. E vice-versa

cartola

Escreve-me, de madrugada, meu talentoso amigo Marceu Vieira, homem doce demais para conviver com respingos de lama da política – dos quais, garanto aos amigos, é possível escapar -. mas decente demais para deixar de chegar próximo ao pântano e dizer que não, que ele não cobrirá nossas vidas.

Pessoalmente, pouco se nos daria – um pouco menos para mim, um pouco mais para Marceu, algo mais novo – que se pusesse fim à democracia, que se abolisse o tímido progresso social que tivemos (cuja tibieza não impede que tenha sido imenso, pois atingiu milhões e milhões).

Os filhos estão criados, ou quase, temos uma profissão que nos sustenta, amigos que nos confortam, amores que fluem sem os arroubos dos jovens e com os cuidados prudentes que quem já sentiu as dores próprias e alheias. que só o tempo sublima.

Também, nem ele nem eu, vivemos do Governo, não temos sinecuras gordas ou magras ou desejos de termos aqueles automóveis caríssimos que fazem exatamente os mesmo que nos fazem os modestos. A única coisa , creio, que queremos muito é tempo e tempo não se vende nem nas lojas mais chiques.

Que diabos nos faz, então, passar dias e noites escrevendo – ele, delicado; eu, panfletário – em favor de uma democracia que sabemos corrompida pelo dinheiro, algo que nos deixa diferentes de tantos que conhecemos, que andam reluzentes como seus automóveis caros e suas roupas que nem de longe lembram nossas camisetas já ruças?

Nem mesmo as recompensas da vida eterna que não teremos nos é prêmio.

No fundo, creio que escrevemos  pela ternura da qual Marceu cuida em seu delicado texto.

Aquela que nos faz, subitamente, abraçar alguém que quase nem conhecemos e dar-lhe algo de nós: um colo, uma palavra, um sentimento, um texto.

Ou aquilo que o tempo – já tanto – não nos fez entender, mas fez compreender, aceitar, perdoar e até apreciar nas diferenças.

O nome desta ternura, transposto do indivíduo para a sociedade, é democracia.

 

PS. Leia Marceu. Ele é diferente de mim, no talento e, volta e meia, nas maneiras de ver a política. Nunca, porém, no lado escolhido. Não precisamos nem nos ler, nem nos falar, para saber que é o mesmo.

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