Em nome das nossas crianças

Sábado é dia de família e às vezes dá vontade de falar sobre os problemas e alegrias desta micro sociedade onde todos queremos viver bem.

Por isso, trago uma indicação para aqueles que, como eu, têm a angústia de ter filhos diagnosticados como portadores de TDAH – transtorno do déficit de atenção e hiperatividade –  ou de  outros, correlatos, de sintomas assemelhados.

É o artigo “Porque as crianças francesas não têm TDAH “ da Doutora em Psicologia Marilyn Wedge, norte-americana. (leia aqui a 2ª. Parte)

É uma visão interessante (e contestada por outros profissionais) sobre um diagnóstico que está se tornando generalizado, como frisa seu texto, ao ponto de atingir quase um décimo de todas as crianças dos EUA.

Óbvio que ninguém está dizendo que não existe esse transtorno ou que isso é invenção. A discussão entre os profissionais de saúde é importante e séria, mas preocupa uma eventual banalização de um diagnóstico, porque as crianças que realmente têm transtornos precisam merecer o tratamento mais correto e universal que se possa dar.

Aqui, o fenômeno apontado nos EUA também está crescendo vertiginosamente, ao ponto de faltar Ritalina, o mais frequente medicamento usado em sua terapêutica, em todo o país, o que têm deixado alucinados os pais de crianças que têm essa prescrição médica.

Há duas razões essenciais para o problema.

A primeira, é que a única fabricante do remédio, a suíça Novartis, lançou uma nova versão, a Ritalina LA, mais cara, que é diferente da comum e não a substitui.

A segunda é a procura, cada vez mais intensa, da droga como auxiliar à concentração para trabalhar ou, sobretudo, estudar para provas.

Há um mercado negro do produto, como o site de onde retirei a imagem acima, cobrando preços que chegam quase a R$ 500 por caixa, nas dosagens maiores. Caso de polícia, óbvio.

E bote caixa nisso. Segundo o Conselho Federal de Pasicologia “dados apontam que o Brasil saltou de 71 mil caixas do medicamento Ritalina (nome comercial do composto cloridrato de metilfenidato) vendidas nas farmácias em 2000 para 2 milhões em 2010. Isso sem contar o que foi administrado no Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Pior ainda: existe uma crescente pressão de profissionais ligados ao cuidado infantil para “acalmar” os agitados com ritalina. Eu mesmo vivi esta situação, com “cobranças” para que meu filho fosse medicado, mesmo não tendo recebido, nas consultas médicas, indicação segura quanto a seu uso. Isso foi aceito com certo “muxoxo” por alguns profissionais pedagógicos.

Talvez seja resultado da ação em favor desse diagnóstico.

No seu site, o médico Dráuzio Varela diz que,  em 2010,  a Novartis e a ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção) promoveram o concurso “Atenção Professor”, que tinha como objetivo “ajudar os educadores a conhecer e lidar melhor com o TDAH”. Para levar o prêmio de R$7 mil era preciso apresentar as melhores propostas de inclusão de portadores de TDAH na sala de aula. Além do valor, as escolas ganhariam um kit contendo uma champagne, um Certificado da Escola de Projeto de Inclusão e um troféu. O  líder do projeto iria receber nominalmente apoio para participar de um Congresso Nacional na área de educação, “contemplando passagem, hospedagem e inscrição no valor máximo de R$4.000,00”. Três escolas foram sorteadas”.

Não desqualifico, de forma alguma, o apoio farmacológico à solução de problemas de desenvolvimento infantil. E não rechaço a ideia, por dolorosa que seja, de que uma criança tenha transtornos na sua formação pessoal. Vivo esta situação e sei que, mais que ninguém, quem tem de ser “especial” são os pais, com presença, estímulo e amor lúcido.

Mas quem ama as crianças e acredita nelas como nosso futuro tem de acompanhar esse debate, porque há nele confronto entre ciência e preconceito, entre interesse público e imensos  ganhos comerciais.

 

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