De volta ao Brasil Colônia. Por João Sicsú

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Do economista João Sicsú, na CartaCapital:

O Brasil encontrará o seu passado no futuro. O Brasil será o que foi: uma colônia. No século XXI, a colonização assumiu novas formas. Não é mais um país que domina o outro pela força militar.

A Coroa dos dias de hoje são as megacorporações multinacionais, os grandes bancos e o rentismo. Essa nova Coroa é mais forte e maior que os Estados nacionais. Hoje em dia, é o poder econômico organizado que domina países. E o governo do país dominado se entrega completamente. E, por vezes, agradece ajoelhado.

Para fora, o governo esquece sua independência. Uma suposta orientação de soberania nacional desaparece das possibilidades. Para dentro, somente toma decisões para favorecer a nova Coroa em confronto direto com os interesses de suas populações, tal como era no período colonial do passado.

Mais que o governo, o Estado se torna autoritário e violento. Todas as instituições que outrora deveriam constituir uma república democrática se voltam contra os trabalhadores. A Justiça, o governo, o Congresso, as polícias e os grandes meios de comunicação estarão todos a serviço da nova Coroa e contra os trabalhadores. Os cargos de comando nessas instituições são ocupados majoritariamente por integrantes de famílias tradicionais e conservadoras da elite local. E essa elite se desdobra para favorecer a nova Coroa e seus próprios interesses (de poder e patrimoniais).

A elite colonizada se revela sem qualquer discrição: rouba, forma quadrilhas, paga e recebe propina, não atende necessidades básicas da população, saqueia o orçamento público e elimina direitos sociais. O Estado democrático, prestador de serviços e garantidor do bem-estar social desaparece. O Estado volta a ser autoritário, violento e perde a função de ofertar serviços à população, tal como era entre os séculos XVI e IX.

A economia da colônia do século XXI, tal como no passado, volta-se quase que exclusivamente para o exterior. Por decisão da nova Coroa e com a empolgação da elite local, o país se especializa na exportação de produtos básicos. No caso do Brasil, exporta petróleo bruto, madeira, grão de milho, açúcar bruto, carnes bovina e suína, soja e minério de ferro.

Há um novo produto econômico para ser explorado e, portanto, para gerar mais ganhos para os ricos locais e sua nova Coroa: o orçamento público. O orçamento deve ser engordado por meio de um sistema tributário regressivo que poupa a elite e a nova Coroa e sacrifica a população. Assim foi no Brasil do passado e é no Brasil do presente. No século XVIII houve até rebelião contra o pagamento excessivo de impostos. Seu líder foi condenado à forca e esquartejado.

A proposta de administração orçamentária decorrente da emenda constitucional que estabeleceu limite para os gastos primários do governo por 20 anos enxugará todos os serviços públicos (educação, saúde, previdência etc.) e transferirá recursos na forma de pagamento de juros ao rentismo. Os rentistas são principalmente as próprias megacorporações multinacionais e os bancos. No século XVII, uma das motivações da Insurreição Pernambucana que expulsou os holandeses do Brasil foi a cobrança de juros extorsivos. Colonos portugueses eram massacrados pela usura praticada pelos holandeses.

A recente reforma trabalhista e a lei da terceirização barateará o custo da mão de obra: a remuneração laboral será baixa, variável e volátil e os direitos trabalhistas irão desaparecer. Restará o trabalho de baixa qualificação, exaustivo e mal remunerado. Férias somente existirão por conta própria, tal como um desemprego voluntário temporário. Décimo terceiro salário será considerado um privilégio.

O escravo do passado estava preso e era castigado fisicamente quando não produzia. A partir de agora o trabalhador no Brasil viverá uma quase-escravidão. O trabalhador estará livre para se sentir um competidor (um empreendedor de si mesmo), sempre concorrendo com milhões de outros trabalhadores que também se sentem empreendedores de si mesmos. Cada um desejando a sub-posição laboral do outro. Suas armas de concorrência serão mais produtividade (ou seja, mais esforço físico) e menos remuneração (ou seja, menos qualidade de vida). O seu castigo será a sua subutilização, por exemplo, por meio do trabalho intermitente ou o desemprego.

O mercado interno de consumo minguará por falta de capacidade de compra devido aos baixos salários, ao subemprego, ao desemprego e ao desalento. Produtos manufaturados serão quase todos importados. Indústrias tenderão a desaparecer. Quando o Brasil era colônia portuguesa, Dona Maria I, a louca, proibiu a atividade industrial no Brasil para que não faltasse mão-de-obra para a produção de açúcar e para a extração de ouro. Somente era permitida a fabricação de sacos para empacotamento e a confecção de roupas para os escravos. Era permitida a indústria que apoiava a exportação, tal como será no século XXI.

Nos tempos atuais, a mão-de-obra se concentrará na produção de mercadorias básicas exportáveis e na geração de serviços. Grande parte dos serviços não pode ser importada. Contudo, os setores altamente lucrativos de serviços serão comprados pela nova Coroa. O consumo das famílias estará deprimido e o investimento doméstico ficará estagnado. Quando a economia crescer, crescerá para fora (devido às exportações). Atualmente, ainda temos a “plantation” dos tempos passados da colônia: grandes extensões de terra, mão-de-obra quase escravizada e monocultura voltada para o mercado externo.

No período em que a Coroa era Portugal, a concentração de riqueza se dava pela quantidade de terras distribuídas, desde que foram estabelecidas as capitanias hereditárias no século XVI. A terra continua um valioso ativo. Mas hoje a riqueza também se expressa pela quantidade de ativos financeiros que rendem juros aos seus detentores.

Esse é o Brasil que temos pela frente. Melhor se essa história futura pudesse ser abortada. Mas para isso será preciso que os trabalhadores estejam conscientes e mobilizados. E, principalmente, devem entender que somente as disputas eleitorais não serão suficientes. Será necessário promover uma verdadeira e profunda independência da nova Coroa e da elite local.

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17 Respostas

  1. Francisco Preto disse:

    Melhor texto que li. Estamos na merda. :(

  2. renato arthur disse:

    Esse texto deveria ser lido nas escolas para ensinar a história passada e presente do Brasil. Quando vejo um governo de cleptocracia.
    A fase “cleptocrática” do Estado ocorre quando a maior parte de sistema público governamental é capturada por pessoas que praticam corrupção política, institucionalizando a corrupção e seus derivados como o nepotismo, o peculato, de forma que estas ações delitivas ficam impunes, por todos os setores do poder estarem corrompidos, desde a Justiça, os funcionários da lei e todo o sistema político e econômico.
    Por isso o Brasil após 517 da sua descoberta ainda é uma colonia escravagista, que os curtos 13 anos de um governo popular se tornou insuportável para sua elite dominante.

  3. renato arthur disse:

    Hoje vemos a declaração de Armínio Fraga, dizendo que uma política populista levará o Brasil para o Brejo. Quantas vezes o Sr Fraga pegou um martelo nas mãos, ou andou de ônibus, ou foi em uma feira popular, ou entrou em loja de 1,99 ou deu um abraço em pobre trabalhador. Pessoas que vivem do mercado financeiro, que são rentistas nada mais são que a continuação da oligarquia da coroa portuguesa rodeada de escravo, que implantou essa mentalidade em que esse país é para ser explorado e vendido. O Brasil nunca chegará a nada com homens com a mentalidade de um FHC ou de um Armínio Fraga.

    • Cleusa disse:

      Esse cara é um verdadeiro canalha! Responsável pelos 45% da taxa de juros à época de FHC! Tem que perguntar para esse parasita – que Brasil será levado para o brejo com programas de distribuição de renda??? É claro que é a turma dele que não poderia explorar tanto a sociedade não?!

  4. Jonny disse:

    Realmente, texto muito esclarecedor, excelente (e triste) análise.

  5. Lenita disse:

    Tem que ter luta e resistência. Tem que ter Paulo Freire e muita atenção para pedagogicamente fazer o trabalho de formiga de conscientização e informação. Seria bom tb eliminar os robôs que estão aí só pra alimentar o sistema de poder disciplinar da ignorância e obtusidade.

  6. Jorge Leite Pinto disse:

    Disse tudo, nem precisa desenhar, até pra coxinha retardado (redundância?) está fácil a compreensão…

  7. vera vassouras disse:

    ASSEMBLÉIA CONTITUINTE ” INDEPENDENTE DA NOVA COROA E DA ELITE LOCAL”. Todavia, no Brasil, ao contrário da Venezuela, as Forças Armadas não estão a serviço da Nação e, sim, da elite local. Elite de SOCIOPATAS cujas togas, como asas de galinha, protegem suas crias e seu direito hereditário ao genocídio.

  8. Ruy disse:

    Engraçado, que nenhum palerma “de bem”, vem aqui comentar, em artigos como este. Esta’ é a luta progressista. A luta para manter Lula no pareo, é a luta pela soberania e garantia das riquezas do pais nas maos dos brasileiros – nao nas maos dos empresarios brasileiros(nascidos no Brasil apenas), que querem vede-las por preço de banana, suficiente para enriquecer apenas a eles. Apesar de respeitar e adimirar muito Lula, nao precisamos que seja ele o presidente, mas tem que ser alguem que implante o plano de governo, que ele quer implantar(ja’ havia começado) e Ciro Gomes diz que quer implanter tambem.

  9. Helbert Fagundes disse:

    Boa tarde,

    acho engraçado chamar alguém, digo coxinha de pateta. São tapados mesmo, pois a viseira não deixa ver ou só ver ovos….

  10. Gilbert disse:

    Quem bancou as reformas trabalhistas e terceirização irrestrita foi a turma do Itaú e do Bradesco!

    O povo tem que enxergar e identificar com urgência, além da rede globo e dos EUA, quem são seus outros algozes… E romper definitivamente com a Servidão Voluntária e a Síndrome de Estocolmo que parece lhes assolar.

  11. José Ricardo Romero disse:

    Mas Sr. Sicsú, isto não é original. Seu artigo fala da teoria da dependência do fhc e o Sr. não dá o crédito?!

    • Iurutaí disse:

      Parece que você nunca leu a teoria da dependência. Mas, se fosse o caso (e não é), por que “dar crédito” se o próprio fhc pediu para esquecermos o que escreveu?

  12. Ulan Bator disse:

    Por isso a cretina propaganda da gloebels…..AGRO É POP, AGRO É TUDO…..

    Só uma pequena complementação….eram os judeus holandeses que extorquiam via juros os comerciantes portugueses do velho e bom Pranembuck.

    Mesma situação na Alemanha do pós WW I levou ao nazismo e para os judeus todos sabemos o que reservou a história naqueles deploráveis anos.

    Pois bem, pode-se conseguir extorquir o povo por um largo espaço de tempo de forma impune, mas seguramente em algum momento cabeças irão rolar.

    Se não houver uma reação popular firme e que esteja pronta para ir além da farsa eleitoral , imagino que o brasil se desintegrará em breve.

  13. Nelson disse:

    A proposta do “Ponte para o Futuro” é esta: desprezar toda as imensas capacidade e criatividade do povo brasileiro e transformar o nosso Brasil em mera colônia. A proposta é igual para nossa vizinha Argentina; Macri foi eleito com um caminhão de dinheiro com este objetivo.

    Presente no “Salto para o abismo” – assim deveria ser chamado esse programa do PMDB -, está a proposta de fazer o Brasil assinar os chamados Tratados de Livre Comércio [TLCs], que nada têm de livre comércio.

    Uma vez que tenham conseguido isso, estaremos na condição descrita pelo economista estadunidense, Paul Craig Roberts, no artigo “A reescravização dos povos ocidentais” que foi publicado em http://resistir.info/crise/roberts_09nov15.html.%5D

    Segundo Roberts, aos povos que vierem a assinar tais tratados restarão duas opções, a revolução ou a morte.

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