“Apesar da crise”, um país menos desigual. Salvo, claro, nos detalhes dos jornais

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O caro leitor deve ter visto todas as matérias que, hoje, noticiam “o aumento da desigualdade social” no Brasil, usando como base a Pesquisa nacional por Amostra Domiciliar, a Pnad.

Aí em cima, numa pesquisa no Google, quem não leu pode ter uma ideia do tom usado.

E, no destaque, a exceção: o Valor.

Que, mesmo fazendo o registro da desaceleração provocada pela retração econômica, chama a atenção para o mais importante.

“O rendimento médio mensal real dos 10% mais mal remunerados no país quase dobrou em dez anos — cresceu 91% entre 2004 e 2014 — mas dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) realizada no ano passado revelam que o avanço da renda tem ocorrido em ritmo mais lento.”

Mesmo com o tom reservado – que é correto, a persistir a política contracionista (e mal sucedida) adotada com as bênçãos do “mercado” – a informação mais relevante é tratada como deveria ser: a mais relevante.

O fantástico crescimento da renda dos mais pobres, em valores reais (ali está corrigida a inflação) que, embora ainda estando em níveis vergonhosos, dificilmente se encontra neste mundo injusto.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2011 e 2014, os rendimentos desse grupo tiveram crescimento de 12,7%, taxa bem inferior à registrada nos três anos anteriores, de 28,9%.

Ainda assim, ao longo de uma década, os ganhos do décimo da população que menos recebe cresceram três vezes mais do que os do estrato dos 10% mais bem remunerados, cujos rendimentos aumentaram em 29,7%.

E o que são as duas coisas que mereceram o destaque da grande mídia?

giniA queda da desigualdade na Região Sudeste. O índice de Gini, que a mede, indicando com valores decrescentes (zero seria a perfeita igualdade) as disparidades de renda subiu – e apenas na região, em todas as outras baixou –  em três milésimos, de 0,483 para 0,485, de 2013 para 2014.  No Nordeste baixou seis vezes mais, 19 milésimos ( de 0,509 para 0,490 mas, claro, isso jamais será manchete.

Para compreender estes números ao longo de sua série, é bom saber que o índice, em 2002, era de 0,560 no Sudeste e de 0,600 no Nordeste. Mas isso, claro. não vem ao caso.

O outro destaque foi para o aumento do trabalho infantil.

trabalhoinfantilCertamente é muito ruim que tenha sido interrompida a sequencia de quedas que há muito tempo se vem registrando, mas o resultado é muito pouco considerável  – pode mesmo ser uma flutuação estatística  – para que se diga que aumentou, como você vê na tabela divulgada pelo IBGE, cujo conjunto pode ser obtido aqui.

É preciso considerar com muita atenção este dado, até porque a maioria do trabalho infantil agrícola se dá em atividades familiares, onde não se vai registrar “desemprego”. Outro fator importante pode ser a falta de reajuste no Bolsa-Família dentro de um quadro de aceleração inflacionária.

De toda forma, o que salta dos dados da PNAD é  o quão socialmente criminoso seria abandonar o projeto de valorização do salário – especialmente o mínimo – e  cortar a política de subvenções sociais que se pratica há mais de uma década.

Exatamente o que desejam os que “comemoram” resultados de pesquisas de indicadores sociais que lhes dêem algum gancho para dizer que vivemos um desastre, como se desastre não fosse o tempo em que eles mandavam neste país.

 

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