Quando o “politicamente” correto é estúpido, por Jari da Rocha

aladim

Não resisto à apresentação já desnecessária do Jari da Rocha, colaborador deste blog, porque ele toca num ponto que a mim incomoda ao extremo: a superficialidade hipócrita de um “politicamente correto” com que o cinismo se disfarça.

Ele reage à incrível história das reações contra um casal que, fantasiado de Aladim e Jasmine, vestiu no filho trjes de Abu, o macaquinho que acompanha o herói da lenda árabe. Foi o que bastou para que fossem chamados de racistas por gente que, ao contrário deles, nunca teve a coragem de adotar uma criança e ainda mais, uma criança negra, para a qual milhares de casais candidatos à adoção torcem o nariz.

Não haveria nenhuma reação se a criança estivesse de rato Mickey, de porca Peppa Pig, de vaquinha da Parmalat ou de cachorro Pateta. Macaco de filme Disney e musical da Broadway, não pode? Não sabia, porque quando os meus hoje adultos eram pequenos e minhas pernas resistiam, cansei de brincar imitando macaco, puxando orelhas, fazendo cócegas e arrancando risadas. Depois, com o mais novo, cantando o lindo “Macaquinho sai daí“, da Bia Bedran, para ele ir dormir na sua própria cama.

Isso nada tem a ver com a ofensa racista, inegável e odiosa, da palavra dita com o ódio da desqualificação humana.

Ah, francamente, temos racismo e discriminação demais neste país para ficar enchendo o saco de uma família que, evidentemente, só estava curtindo sair fantasiada em conjunto, estreitando mais seus laços.

Por isso, subscrevo tudo o que diz Jari contra a simplificação irracional, contra um ato de integração, de amor e identidade de um casal de pais que vai brincar o Carnaval com o filho, cheios de alegria e recebe uma saraivada de ódios.

Próxima vítima? Por aqui, por favor!

O senso comum facilita nossas vidas. Permite-nos opinar, com argumentos já definidos, sobre algo que já está decido pelo grande público que se manifesta. Além disso, por sua envergadura e volume, intimida demais dedos em riste e suas cantorias. Os poucos que se atrevem sucumbem diante dos gritos ávidos e áridos do plantel maniqueísta.

Há características que auxiliam no sucesso de tais ondas opinativas, uma delas e também a mais decisiva é a avaliação superficial saturada de dogmas e considerações conservadas em sal e vinagre. O que mais assusta é que, justamente as mesmas pessoas que bradam por renovação e modernidade, acabam se traindo por um descuido senso-comum. Reafirmam antigas e supostas verdades em detrimento de possíveis novas possibilidades e, nessas horas, nem mesmo o mais elucidativo provérbio chinês pode salvar – do tipo: “não julgue isso ou aquilo”.

Com a amplificação das opiniões em voga e, também, a multiplicidade de conflitos conceituais, o senso-comum se manifesta como nunca antes na história desse país. Baseado na lei do menor esforço, não ajuda muito para salvar uma moçoila ruiva de olhos verdes que, porventura, for apontada como potencial bruxa.

Há uma pressa em condenar. E se for algum pai desavisado da existência dessa horda de justiceiros, que resolva brincar com seu filho adotado nos ombros?
Pedras serão inevitavelmente lançadas.

A modernidade das redes sociais e sua adesão em massa possibilitam ampliar nossos gemidos intestinais e salvar, num click cômodo, uma cachorrinha perdida, aderir a campanhas de beatificação a suicidas, contrair vírus ou até mesmo acabar com vidas e reputações alheias.

Com um pouco mais de esforço, pode-se teclar a palavra “absurdo” diante de algo que não se sabe exatamente como foi é ou será, mas que, pelo menos, pareça absurdo. Basta parecer e quanto mais parecer e mais sintético for, maior a adesão. Fotos com legendas sugestivas são recomendáveis e textos explicativos dispensáveis. É bom lembrar, há imagens que valem por mil palavras, por que perder tempo?

Ao grito, em meio à multidão, de pega-ladrão, viramos, miramos e, sem pestanejar, atiramos a primeira pedra.
Pronto, foi feita a justiça!

 

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