Argentina, o grande salto ao passado, por Gualdi Calvo

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A atual governadora de Buenos Aires, distrito político e econômico mais importante da Argentina, María Eugenia Vidal, ao conhecer o resultado das eleições que acabava de vencer no dia 26 de outubro, para a surpresa de todos, mas fundamental para ela, declarou: “Esta noite estamos fazendo história. Esta noite fizemos o possível e o impossível: trocamos o futuro pelo passado”. Ao fim todos fizeram a interpretação psicológica pertinente e se admitiu uma “falha”.
Pouco mais de um mês depois da posse de Maurício Macri, fica claro que a declaração de Vidal não foi uma falha, mas sim uma confissão tão brutal quanto sincera. Bastou um mês para que grande parte das conquistas do ciclo kirchnerista de 12 anos tenha sido pulverizada.

Apenas com a formação de seu gabinete, Macri demonstrou claramente quais seriam suas políticas. Não foi uma surpresa para ninguém as articulações no campo econômico onde, poucas horas depois de assumir, anunciou um monumental pacote de medidas que beneficiam os mercados financeiros especulativos, entidades bancárias e os grandes produtores agrícolas, em detrimento dos salários dos trabalhadores e aposentados.

Mas não conformado com isso, Macri abusou do temível instrumento constitucional chamado Decreto de Necessidade de Urgência (DNU), que só pode ser usado em ocasiões muito específicas pelo Executivo, a exemplo da ex-presidenta Cristina Kirchner que em 8 anos recorreu a este artifício apenas 29 vezes, enquanto até o dia 30 de dezembro o novo chefe já havia emitido 261 decretos, o que não é mau por si só, o trágico é que está utilizando este recurso para ir contra as leis da Constituição. Utilizou decretos para remover funcionários que têm mandatos com avais constitucionais.

Hoje a Argentina está à beira de se transformar em um Estado policial, o que deixa todos os cidadãos em estado de alerta.

Macri não supera a presidenta Cristina apenas em DNUs emitidos, mas a supera também em balas de borracha utilizadas, o que talvez seja muito mais grave.

O governo kirchnerista foi muito cauteloso na hora de reprimir protestos de qualquer índole, durante os 12 anos a Argentina esteve infestada de ruas e avenidas obstruídas pelos conhecidos piquetes, onde qualquer pessoa podia se manifestar pelo motivo que fosse e mesmo interrompendo o trânsito poderia permanecer ali eternamente, para o desgosto de quem precisasse passar. Este cronista não se lembra de uma só repressão com os métodos atuais, nem de protestos contra o governo nacional.

O povo argentino está recordando os anos duros da ditadura, a repressão de dezembro de 2001, quando 32 argentinos foram executados por capangas de Fernando de la Rúa e o partido da União Cívica Radical nas ruas e praças da capital portenha. Macri já demonstrou, através da governadora Vidal, que não vai tremer o pulso na hora de disparar gases ou balas de borracha, por ora, contra o povo argentino. Já o fez na última semana na cidade de La Plata, onde uma manifestação de funcionários municipais demitidos foi brutalmente reprimida. Uma semana antes, empregados de uma empresa avícola, que protestavam em defesa do pagamento de salários atrasados, tiveram a ingrata honra de receber as primeiras balas de borracha depois de mais de uma década.

A onda de demissões tanto de cargos estatais, como de empresas privadas, recorrem como um fantasma o país inteiro e neste escasso novo tempo já causou mais de 35 mil demissões em sua maioria por questões políticas.

Cada ministro, cada secretário de Estado, inclusive Gabriela Michetti, vice-presidenta da nação e portanto a chefa administrativa do Senado, fizeram mais de 2 mil demissões, sob a desculpa de que são pagos salários em troca de favores políticos a pessoas que não realizam suas tarefas. Tanto os sindicalistas do Senado, quanto os senadores da oposição estão demonstrando com documentos que Michetti mente.

A perseguição trabalhista na Argentina por questões políticas é um fato e, sem dúvida, as perseguições políticas também já começaram.

O governo extorquiu a Rádio Continental com uma pauta publicitária para que despedissem o jornalista Victor Hugo Morales, um dos mais importantes do país, sem aviso prévio, faltando apenas 10 minutos para começar seu programa, sem lhe dar a oportunidade de se despedir de sua enorme audiência de mais de 30 anos.

Macri está atacando brutalmente a Constituição e usando a cobertura midiática oferecida por seu mais importante sócio, o grupo de empresas Clarín, junto com o poder judicial, cujas principais figuras estão cooptadas pela direita.

Seus programas de ajustes econômicos, a depuração da política e a busca desesperada por um discurso único que censure a liberdade de expressão só se sustentam com mais repressão e para isso tem uma representante do Mossad em Rio del Plata, Patrícia Bullrich, no cargo de ministra da Segurança.

Há um mês na Presidência da Argentina, Macri está pagando com crises as dívidas a quem lhe deu a bênção.

O panorama para a Argentina é cada dia mais obscuro, o peronismo está em plena reorganização interna e a ex-presidenta anunciou que em fevereiro abandona seu “exilio” no Sul para ser a líder da oposição.

Ninguém sabe se Macri é consciente do lugar que ocupa na história, sua capacidade intelectual não está em jogo, quem o conhece relata que a única coisa que o comove é o futebol, mas essa falta de discernimento não será desculpa na hora que a história lhe cobrar a fatura.

*Publicado originalmente no Vermelho. Calvo é  escritor e jornalista argentino.

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19 Respostas

  1. Leonel Inácio disse:

    Viva Dilma!
    Viva Lula!
    Viva Ciro!
    Viva Lewandowski!
    Viva Chico Buarque!
    Viva CUT! Viva MST! Viva MTST! Viva UNE!
    Viva o povo brasileiro!

  2. renato arthur disse:

    O “passado” da Argentina poderá ser o futuro do Brasil com a volta do Neo Liberalismo, e nisso se esforçam diuturnamente a nossa Mídia, tentando criminalizar Lula e o PT e a política. O que isso significará é só olhar o que foi a privataria do governo do FHC , só que dessa vez virão com 16 anos de sede pelos recursos naturais do nosso país. As conquistas sociais vão ser aniquiladas como vingança de te-los mantido por tanto tempo fora do governo, mas sempre exaltados, dia e noite, pela mídia que dirá que passar fome é bom para reduzir o colesterol e triglicerídeos e permite uma vida mais saudável.Na volta do apagão, Miriam Leitão, dirá que isso é ótimo porque as pessoas ficando mais em casa reduz a criminalidade.

    • Nelson disse:

      Quais conquistas sociais!!!!! A maioria daqueles que obtiveram o FIES, por exemplo, está inadimplente. Os mais pobres estão sofrendo em maios escala com as escolhas desastrosas do governo. Veja quem mais sofre com inflação e desemprego. Prestações do MCMV está prestes a subir, sem falar na expectativa de não corrigir a tabela do IR. Sabe o que isso significa? Mais imposto principalmente para os mais pobres. Mesmo me esforçando muito não consigo ver nenhuma conquista social que os defensores do governo tato fala.

      • renato arthur disse:

        Consulte os dados oficiais da ONU.

      • mauro silva disse:

        … “mais imposto principalmente para os mais pobres” …
        ou é muito cínico ou muito burro.

        • Nelson disse:

          Será mesmo? Classe média que paga IR deduz escola particular, plano de saúde, previdência privada e até empregada doméstica. O menos favorecido que atingir o valor para pagamento de IR e não tive nada de dedução não irá pagar mais proporcionalmente à renda? Entendeu ou quer que desenhe? Esse governo é indefensável. Acorda e veja os fatos. O que você tem a dizer sobre a decisão de não permitir a tão sonhada auditoria da dívida pública?

          • Esse é mais um TUCANO sem plumagem e sem Cérebro. O elemento que tem um discurso IDIOTA como esse tal de Nelson só pode ser muito IMBECIL para não querer ver a qual diferença existe entre os últimos Governos e o Governo TUCANO dele, tudo isso que você relata meu Imbecilzinho Idiotinha poderia relatar para o povo Brasileiro o que seu Herói de 1 $ 100 milhões fez de melhor? Que tal você começar???

      • henrique de oliveira disse:

        Realmente Nelson ai em Marte a coisa deve estar feia.

        • Nelson disse:

          Argumentos, estou esperando os argumentos dos estatizados. Nem falei de corrupção uma vez que ela está presente em todos os partidos; embora o PT tenha elevado a uma potência nunca antes na história deste país.

          • Danilo Stinghen disse:

            Aqui estão alguns argumentos. Me diga qual partido faria uma reforma tributária honesta. Estávamos nós, treze anos atrás, após a Operação Desmonta-Estado do FHC. Vendeu o patrimônio público, aumentou a carga tributária na base da pirâmide e entregou o país após pedir mais trinta bi de empréstimo ao FMI. Falamos dos governos anteriores? Tipo o Collor do confisco, ou o Sarney dos fiscais. Falemos então de outros prospectos. Cunha, das contas na Suíça. Talvez o Aécio que quebrou MG com o seu choque de gestão. Dilma cometeu muitos erros, mas o maior deles foi adotar a metodologia do inimigo. Juros altos dando grana luta banqueiros, cortes recessivos na economia, aposta no arrocho sem ter uma contraparte nos mais ricos (os patos do pato der borracha). Ainda prefiro essa furada a um segundo de governo do Aécio

  3. jossimar disse:

    Espero que o que está acontecendo lá sirva de lição aos brasileiros porque tudo isto pode perfeitamente acontecer aqui se os tucanos voltarem ao poder.
    basta ver o que acontece com manifestantes em estados governados pelo PSDB como o Paraná e São Paulo.

  4. renato arthur disse:

    Cerveró agora desmente as afirmações s/ Lula. Como fica a nossa mídia que organiza uma cruzada contra Lula, faz um a semana, em particular a Globo com suas reportagens que escandaliza a participação do Lula. Pois tem que processar e o governo tem que ir para cima desses picaretas midiaticos.

  5. Márcio Martins disse:

    Que bom que a direita está se achando; mostrando sua verdadeira face…daqui a pouco este terá o mesmo destino do ex-presidente chileno, que nem me lembro o nome, e nem faço questão de lembrar, que nem fez o sucessor, e olha que perto do Macri ele era um democrata…fracasso total. E nossa mídia tanto de lá quanto de cá, enchendo a bola deste protótipo de ditador. Dizendo que a Argentina agora virou um paraíso; para quem mesmo, cara pálida? A reação virá, virá mesmo. Eles se surpreenderão…

  6. Miguel Silva disse:

    Até a eleição de Macri a Rede Globo todo dia tinha notícias críticas a respeito do governo de Cristina, principalmente na economia e na política. Agora, com um governo de direita, a Argentina saiu do noticiário da TV dos Marinhos. Ficou somente a Venezuela para o Bonner e asseclas baterem.

  7. emerson57 disse:

    Um dia o Brasil vai cumprir seu ideal,
    Vai virar um imenso bananal!
    A Argentina já virou,
    nós, macaquinhos, imitaremos.
    Pior, aqui o Macri se chamará Alquiming ou laércio.
    Tamufú.

  8. Nelson disse:

    E, segundo a nossa mídia hegemônica e seus (de)formadores de opinião, são os venezuelanos, os iranianos e os cubanos que vivem sob ditadura.

    Macri é um capanga dos Estados Unidos. A última ditadura civil-militar destruiu, à base de torturas e assassinatos, as organizações populares da Argentina. Macri vem com o mesmo objetivo: aniquilar qualquer oposição para, assim, conduzir, tranquilamente, o país vizinho de volta ao rebanho liderado pelos EUA.

    É de pasmar, mas tem gente que aparece por aqui para defender a destruição de um país em prol dos interesses do império norte-americano.

  9. Danilo Stinghen disse:

    É bicharada. Quem pensa que no Brasil a direita vai fazer igual está redondamente enganado. Eles vão é fazer pior. Hipocrisia sempre comeu mais forte no país que chama golpe militar de contra-revolução e guerra civil de revolução constitucionalista

  10. Lenita disse:

    Esse artigo tem que bombar no net e em todos blogs progressistas! O povo nao e bobo e os hermanos argentinos nao tardarao a colocar esse Macri fora de orbita ! A nao ser que ele (Macri) acredite que a America Latina ainda e o quintal do tio sam ? Esse tio (minusculo mesmo!) sabe que os tempos sao outros.

  11. Maria disse:

    É o Brasil de Aécio, de Serra de Alckmin, de Temer.

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