Chico clareou o nevoeiro golpista, por Jari da Rocha

chicopb

Eu tento ler todos os comentários, nem sempre consigo fazê-lo com vagar, mas ontem um deles saltou em minha direção.

Não só pelas ideias, claras e precisas, mas pela qualidade do texto.

Velho e incorrigível fuçador, fui ver quem era o autor: Jari  da Rocha, que eu não conhecia.

E é um mestre em Linguística e Literatura, professor, cronista, escritor, coordenador e organizador de centros culturais e prêmios literários e blogueiro.

O que prefiro resumir em: estuda, pensa, faz e escreve bem.

Liguei para o Jari e pedi – quase impondo – para trazer o texto dele  a um post, para não ficar espremido naquelas linhas poucas que o Facebook deixa aparecer. Como ele foi gentil e concordou, arroguei-me à condição de quase gaúcho e disse ao “conterrâneo”: te abanca no Tijolaço, quando quiseres.

Espero que este seja apenas o primeiro dos textos de Jari que publico, os próximos sem a lenga-lenga das apresentações.

O Resumo da Buffa Opera

Jari Maurício da Rocha

Depois que a expectativa de ver um governo popular cair por si mesmo ruiu, os ânimos se mantiveram amistosos por um bom tempo. Porém, Lula foi reeleito, apesar da judicialização política e da midiatização da justiça.

A boa notícia, no entanto, era que seu nome não estaria nas cédulas de votação da eleição seguinte. Todavia, o mesmo projeto foi reeleito com nome diferente. Foi a gota d’água que faltava para a direita tomar uma atitude, embora viesse tratando disso através de cooptações e ‘sensibilizações’ de futuros servidores em posições estratégicas.

Era preciso agir para acabar com as sucessivas derrotas, desta forma, se iniciou a etapa de evangelização, cuja principal pregação era o apolitismo, introjetado via senso comum. Havia ainda a necessidade de alterar a onda de vergonha dos cidadãos que se esquivavam para se autoproclamarem de direita.

Diante de um governo de esquerda que possibilitou mudanças sociais estruturais, política econômica voltada ao bem estar social, ações transformadoras e visíveis, os militantes de direita desapareceram.

Assim, o apolitismo serviria de estágio para se sair da estima em frangalhos para, num futuro próximo, chegar ao orgulho de se opor. O tiro, no entanto, saiu pela culatra.

A definição “não sou de direita nem de esquerda”, cunhada no processo de despolitização, acabou atraindo possíveis simpatizantes dos partidos de oposição a grupos extremos que chegaram até mesmo a pregar a volta da ditadura.
Foi imperativo concentrar esforços em torno de um ‘Novo’ projeto de ‘Brasil’, cuja plataforma, única e exclusivamente, tinha por fim encerrar a era petista – com o slogan da moralização e do ‘Abaixo a corrupção’ e, por incrível que possa parecer, renegando o próprio Brasil.

A acertada escolha de Aécio Neves – quase 49% dos votos – a criminalização política e a campanha de desmoralização do petismo não foram suficientes para chegarem ao Planalto. E a ‘quase’ vitória serviria para legitimar uma reversão do resultado das urnas.

O ataque iniciou logo após as eleições – o candidato da oposição tinha prazo de validade – e se intensificou a partir do momento em que o PT assumiu pela 4º vez o Governo Federal.

A ideia era criar um sentimento de acanhamento para a esquerda. Só os insanos se atreveriam amparar um governo corrupto. Frases de laboratório seriam repetidas a esmo: “Isso é defender o indefensável; o governo mais corrupto da história; o PT afundou o país; um mar de lamas…”.

Usaram todas as armas possíveis: bombardeio midiático, fabricação massiva de boatos, vazamentos e julgamentos seletivos, desaparecimento de helicóptero com meia tonelada de cocaína e o atiçamento da população para sair às ruas não importando o motivo.

Esta última, aliás, do gigante que despertara, foi como uma espécie de carnaval de rua embalado pelo samba do crioulo doido. Virou motivo de piada nas redes sociais.

Isso também atrapalhou os planos, pois o tempo era limitado para que o golpe obtivesse êxito. Então, os podres começaram a vir à tona. Em pouquíssimo tempo as passeatas, apesar do dinheiro, foram mirrando e chegou-se ao ponto de os adesivos “A culpa não é minha. Eu votei no Aécio” começarem a desaparecer das camionetes de luxo.
Não havia mais como segurar a barragem de lama que ocultava décadas de impunidade, entreguismo e corrupção – sem falar da compra de votos da reeleição e o desmonte do estado na era FHC.

O engavetador geral não estava mais lá e a imprensa (desacreditada, desmascarada) não conseguiu conter a lama nem (que soubéssemos) a 1ª dama (Lu Alckmin) que voava como se o estado, minimizado, fosse suas próprias asas.

Havia ainda o novo filme de Aécio Neves: Os trezentos mil.

Durante o longo período de demonização do governo, houve resistências. Jornalistas, cineastas (Jorge Furtado), atores (Zé de Abreu, Werner Schunemann e Osmar Prado), escritores (Fernando Morais) eram execrados e apedrejados em ‘time line’ pública, mas não se intimidaram.

Só o que faltava ainda era um fato que resumisse num só nome do que o desvairismo e a cegueira eram capazes. E foi no Leblon.

A partir do episódio Chico Buarque, o país começou a se perguntar: A que ponto? E a névoa que encobria a campanha golpista começou a se dissipar. Claro, pelo alto grau de contaminação, alguns ainda fazem coro “Chico é um merda!”. O que dizer deles?

A direita falhou novamente, errou em muitas coisas, mas numa delas acertou em cheio e deverá seguir na estratégia: a fabricação de boatos. Eles apostam na ignorância, no senso comum e na falta de informação.

Por isso, ainda surgirão milhares de boatos, bombardeios incessantes para que não dê tempo de respirar, nem de pensar. Isso servirá de base para novas estratégias que vão sendo traçadas.

Apesar das disputas tucanas internas, um novo nome poderá vir com a força de um lava-jato. Possivelmente, o foco, que era 2018, pode ter mudado para 2022. E isso não significa trégua, muito pelo contrário.

Não se pode desconsiderar nada. Essa turma é incansável, sedutora e esperta. Afinal, são 500 anos de experiência.

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Comentários no Facebook

45 Respostas

  1. Maria Rita disse:

    Muito bom.

  2. JURIDICO disse:

    Fernando poderia escrever um artigo a respeito dos auto denominados “bad boys de Harvard em Curitiba”. Engraçado o doleiro está com o garoto que salvou o ano desde o inicio da Vara de Guantánamo. Quebrar as empresas brasileiras foi planejamento de 10 anos??? Os garotos sabem fazer planejamento a longo prazo.

    Aguardo Saudações brizolistas

  3. Bernardo disse:

    Texto claro, sensato e fiel à realidade do que vem ocorrendo desde meados de 2013, ponto de inflexão da trama iniciada na surdina em 2010, após a primeira eleição da Presidenta. E importante identificação no texto de uma nova data meta dos inimigos do país: miram 2022 pois 2018, sem candidato, sem plano, sem discurso, sem cheiro de povo ficou bem mais difícil. A experiência acumulada dos 500 anos já sinalizou a eles. Mas todo cuidado é pouco pois vão continuar esperneando.

  4. A. R. Carvalho disse:

    Muito bom. Discordo apenas quanto à falta de informação. Prefiro dizer que são mal informados.

  5. Marcelo Adriano disse:

    Fantástica leitura política. Precisamos de mais textos desses, com tanta lucidez.

  6. Leonardo disse:

    Não sei se foi por acaso, mas acho que já estamos envenenados demais – claro, com a omissão deste governo – para ainda sermos “brindados” com comentários de trols ou sub-sub-sub-agentes da CIA tais como Ernesto, Cloves, Alisson… Já havia pedido isso ao Brito. Tomara que seja de verdade a retirada desses canalhas fascistas dos nossos comentários. Quando quiser ouvir o que dizem, dou ouvidos a quem lê ou se informa pelo pig.

  7. titus disse:

    As monobras da oligarquia rentista para atrapalhar as conquistas sociais se acentuaram ja em 2003..mas como o otimismo e esperanca eram fortes na consciencia popular, tiveram que pouco a pouco ir minando ate que o povo distraido e ja com a consciencia envenenada por tanta martelacao da midia perdera o ponto comum e virando-se uns contra os outros…agora como ensina o mestre Santayana e levantar a bunda da cadeira e ir ao ataque um a um a luta sera longa mas venceremos!

  8. Eliana Juiz de Fora -MG disse:

    Admiro quem escreve com clareza, sem rebuscar
    de forma desnecessária o texto.
    Excelente análise política.

    Parabéns ao Jari.

  9. bronco capiau disse:

    Chico de novo????

  10. Sérgio Rodrigues disse:

    É a escalada do antipetismo que, no geral, pretende levar de roldão todo o campo progressista e de esquerda do Brasil.

    Esse movimento, para o bem do País, deve ser combatido sem tréguas e sem piedade, em pé de guerra, pois a coisa é seria e grave perigo nos ameaça!

  11. José de Arimatéia Alves disse:

    Há tempos eu me pergunto: de onde vem o dinheiro que está financiando esses robôs, trolls e outros quetais?
    De igual forma, de onde vem os recursos que banca essas manifestações?
    De que vivem esses líderes?
    A RFB, MP, MPF e PF federal podiam prestar um serviço ao País trazendo as respostas!!!
    PS. Até onde eu sei dinheiro não brota em árvore…

  12. Ricardo Almeida disse:

    Clovis, seu chinelo querendo te comparar com prof jari,Fernando Brito,chico? Vai te catar seu pulguento, capacho da direita, vejam só até onde vai um retardamento mental….

  13. Milton Murilo disse:

    Mas, bah, Jari, tu deu de relho na gambazada !

  14. derli souza disse:

    Só faltou uma coisa neste excelente texto, Fernando. Se por um lado, em 2010 (e também 2014), a impossibilidade de se ter o nome de Lula em uma das ‘cédulas’ de votação proporcionou uma certa tranquilidade aos ‘habitantes’ da Casa Grande, a possibilidade da presença dele nas de 2018 trouxe verdadeiro desespero para aqueles, né não?

  15. Carlos Hums disse:

    Parabéns Brito, continuemos a nadar contra a corrente da mídia vampira. Apesar de você (teleguiado) amanhã será outro dia.

  16. Eva disse:

    Que bom saber. A luta continua.

  17. emerson57 disse:

    É sempre bom conhecer a opinião de gente inteligente e que sabe escrever.
    Mas o que o sr. Jari desconhece é que o destino gloryoso já está traçado.
    Nem óvnis de papel nem taças de vinho conseguirão abatê-lo…
    Em 2038 já está eleito ÇERRA45 vice fegacê…..viiiiiiiiixe! para júbilo danação.

  18. Re disse:

    Muito bom!
    E aponta para um fato que afinal teve mais efeito positivo que negativo – não queríamos isso para o Chico, mas o episódio do Leblon desanuviou, sim.

  19. fernandes disse:

    Oh, dóóóó!!!! desse pessoal de “direita”. Não tem um mísero artista de talento para chamar de seu. Ops, tem sim: o Lobão! Pensando bem, tem mais um: o Roger! Ah, descobri mais um: o, o, o, o Faustão!! Quer mais?

  20. fernandes disse:

    Oh, dóóóó!!!! desse pessoal de “direita”. Não tem um mísero artista de talento para chamar de seu. Ops, tem sim: o Lobão! Pensando bem, tem mais um: o Roger! Ah, descobri mais um: o, o, o, o Faustão!! Quer mais?

  21. Liberato disse:

    Sem os comentários de Ernesto, Alisson, Cloves e Klaus, onde está a polêmica? Desbloqueia eles, Brito. Se não aguenta com vara, peça cacetinho.

  22. Borges SP disse:

    Vou repercutir um comentário de um dos meus irmãos: Se não bastasse a convicção que temos, olhando quem está deste lado, as pessoas, os textos, e olhando quem esta do outro lado, lobões, fábios e aquele pessoal que ofendeu o Chico também, temos a confirmação de que queremos mesmo estar deste lado.

  23. marco disse:

    As DIREITAS em geral,particularmente dos países da A.Latina e alguns outros mais,para dar GOLPES DE ESTADO,precisam mais do que nunca,apoios dos CAMPEÕES DA DEMOCRACIA DAS ARMAS NUCLEARES,afinal os estadunidenses,se não tivessem ARMAS NUCLEARES,seriam como outros paisecos que se espalham pelo mundo todo.Sem esse ingrediente,golpes ficam mais raros.Sem apoios externos e com a CORRELAÇÃO DE FORÇAS mais equilibradas,a coisa fica nisso aí.Tirante o JUDICIÁRIO,poder perigosamente elitista e gozando do INSTITUTO DA IMPUNIBILIDADE,e o PERIGOSO JORNALISMO QUE NOS PODE ” EDITAR ” ao seu bel-prazer,sem sofrer com isso,qualquer tipo de sanção,acho inviável ,qualquer tipo de golpe.Contudo…

  24. Gerson disse:

    Na minha humilde opinião, a virada da direita ocorreu em junho de 2013, nas famosas passeatas das tarifas de ônibus, que logo a direita percebeu a chance de sair do fundo do pântano em que eles estavam e se adonou das ruas, expulsando a esquerda. Dilma tinha mais de 70% de aprovação em maio de 2013, um mês depois despencou para 30% e daí não se levantou mais, a não ser nas últimos semanas da eleição, no qual a esquerda se uniu novamente para não ter que ver Aécioporto subir a rampa do Planalto e desconstruir todos os avanços populares dos últimos 12 anos.

  25. O Sr. Cloves fala que os petralhas saquearam as estatais (mas deram liberdade à PF, ao MP e à Justiça para agirem, embora essas instituições estejam dominadas por agentes encarregados de acobertar os privatas do PSDB-DEM) e arrombaram as contas públicas – mas criaram 22 milhões de empregos com carteira assinada, tiraram mais de 30 milhões de brasileiros da miséria, promoveram mais de 40 milhões à classe média, multiplicaram por 2,5 o poder de compra do salário mínimo, construiu 19 universidades públicas, criou o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o PROUNI, o FIES, mais de 2.000 CRECHES, o PRONATEC, o LUZ PARA TODOS, o MAIS MÉDICOS, o BRASIL SORRIDENTE. As estatais continuam existindo, o Brasil tem um colchão de US$ 370 bilhões em reservas internacionais, a dívida pública, em 13 anos, multiplicou-se por 4,8. Os privatas, em 8 anos, multiplicaram a dívida pública por 11, não saquearam estatais, simplesmente as venderam a preço de banana (a maior pilhagem da história do Brasil, e ninguém foi preso), deixaram as taxas de inflação e desemprego em 12,5%, não construíram uma só universidade, não implantaram nenhum programa como os acima mencionados. Só não vê a diferença quem não quer.

  26. Vivianne disse:

    Arrematou com perfeição: são 500 anos de experiência!

  27. Edgar Rocha disse:

    Lindo texto! Um resumo irreparável dos episódios da novela (arg!) do impeachment. Um grande escritor, com certeza. Seus texto deveria ser citado em cada sala de aula do Brasil. E o final é mais que brilhante: a grande “barriga”, como aprendi aqui com o Brito, da depreciação da esquerda: bater numa figura insuperável como Chico Buarque.
    Mais vergonha-alheia que isto, só a já costumeira eleição de “herois” populares, com a narração impecável do Faustão e a poesias profundas do Bial. Embora eu ache que destas coisas não é certo reclamar. Graças a momentos como estes o povo vai aprendendo a desconfiar do bom senso da grande mídia e do caráter dos que são eleitos por ela para encarnar o ideal forjado pela manipulação de massas. Quando o Moro vier à tona, será mais um Collor no panteão global. Quiçá, venha a ser um Alexandre Frota. Este sim, encarnou totalmente os movimentos pró-impeachment. Nem o Cunha foi tão arquetípico. Todos foram e serão o Frota, vestido de noivinha, com o muque de fora e um nabo esperando pra ser vítima de pompoarismo. Contem isto aos seus netinhos, coxinhas. Digam a eles “fomos todos Alexandre Frota”.

  28. Carlos Roberto disse:

    Minha manhã ficou excelente após a leitura do cabal texto , necessário rogar ao Jari para continuar a nos brindar com textos desta magnitude , por isso, seja bem vindo Jari diariamente por favor.

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